Weizenbier e decocção
2 de Agosto de 2008 às 11:34 rrosa | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 830
Acho que desse artigo o Botto vai gostar: eu fazendo e escrevendo sobre cerveja alemã!
Pois é, nem pretendia fazer uma cerveja de trigo alemã, mas acabei me empolgando, em boa parte por causa do concurso: Weizenbier/Weissbier é um dos estilos escolhidos para o concurso desse ano da ACervA Brasileira, representando a escola alemã. Weizen significa trigo em alemão e Weiss significa branco, um termo comumente associado a cervejas de trigo claras.
Mas a empolgação só veio mesmo pelo desafio de aprender técnicas novas (para mim, é claro, pois são técnicas mais do que tradicionais na escola alemã), como decocção e speise. Em geral não sou tão fã assim de cerveja de trigo, apesar de que em um certo bar (Irish Lion) que freqüento bastante em uma cidadezinha que costumo ir a trabalho nos EUA (veja artigo Indiana Brew-B-Q 2007), a Hacker-Pschorr Hefe Weiss é uma das minhas favoritas e uma das duas cervejas que sempre peço (a outra é a Murphy’s Stout, inglesa). O problema é que há várias cervejas de trigo que acho sem graça. Mas essa da Hacker-Pschoorr é excelente e se conseguisse fazer uma de trigo tão boa, certamente a repetiria com freqüência.
A receita que escolhi para a minha Weizen é bem simples: 50% malte de trigo e 50% malte pale ale, ambos da maltaria alemã Weyermann, com uma OG de 1.056. A lupulagem também foi simples. com Northern Brewer e Styrian Goldings a 60 min. Planejei obter uma OG entre 1.050 e 1.052, mas a eficiência foi bem melhor do que esperava (ficou em 90%) e a OG acabou ficando mais alta, em 1.056. O amargor calculado foi de 13 IBUs. A fervura foi de 2h.
Segundo o BJCP (veja também a tradução na página da ACervA Brasileira), essa cerveja deve ter uma OG entre 1.044 e 1.052 e um amargor entre 8 e 15 IBUs. Mas segundo o livro German Wheat Beer - Classic Beer Styles Series 7, a OG deve ficar entre 1.044 e 1.056 e o amargor entre 6 e 18 IBUs. Pelo menos segundo esse último, a minha cerveja está dentro do padrão! Este livro, aliás, é a fonte principal das informações que menciono abaixo. Outros fontes são as páginas Decoction Mashing do Strand Brewers’ Club e Decoction Mashing do Home Brew Digest.
O sabor e aroma principais devem ser de fenóis, geralmente cravo, e ésteres frutados, geralmente banana, podendo ter toques cítricos, de baunilha e de tutti-fruti.
A lupulagem deve ser apenas de amargor. Não deve haver aroma de lúpulo competindo com as características principais do estilo provenientes da fermentação. Lúpulos de aroma podem ser usados para melhorar a qualidade do amargor, colocando-os para ferver também por 60 a 90min.
O fermento que usei é que deve ser a grande estrela dessa receita, ou pelo menos assim espero. Como dou preferência a fermentos da White Labs, tinha à minha escolha os fementos Hefeweizen (WLP300), típico fermento alemão para weizenbiers, produzindo banana e cravo; American Hefeweizen (WLP320), mais “limpo”, produzindo menos cravo e banana; e Hefeweizen IV (WLP380), produzindo mais cravo e com um pouco de cítrico e abricó, com um mínimo de banana. Como queria evitar uma “vitamina de banana” e gosto da idéia de obter um aroma cítrico, não tive dúvidas em escolher o Hefeweizen IV. Abaixo o fermento sendo ativado:

Segundo à lei alemã Reinheitsgebot, o trigo usado deve ser malteado. Antigamente, parece que as cervejas de trigo eram feitas com aproximadamente 35% de malte de trigo, mas avanços nas técnicas de moagem e lavagem permitiram o uso de proporções maiores de malte de trigo, de 50% a 70%. Mais do que isso pode levar a problemas na lavagem, devido a um aumento na viscosidade do mosto por causa do malte de trigo mais rico em proteínas, e na fermentação, devido a uma suposta deficiência em amino-ácidos.
Uma fato curioso é que a porcentagem de malte de trigo tem pouca influência na concentração de substâncias fenólicas na weizenbier. Apesar do malte de cevada ter menos de certos precursores de substâncias fenólicas, a quantidade desses precursores mesmo com uma porcentagem relativamente pequena de malte de trigo é mais do que suficiente para a produção dessas substâncias. Mas isso não quer dizer que uma maior porcentagem de malte de trigo não possa ser desejada por outros motivos.
Como o malte de trigo não tem casca, é recomendado que a moagem do malte de cevada seja mais grossa do que o normal, para preservar melhor a casca deste, para não prejudicar a lavagem. O malte de trigo pode ser moído mais fino, mas não deve ser pulverizado.
A temperatura de fermentação parece ser bastante importante para a produção dos aromas típicos do estilo, mas isso ainda é pouco tangível para mim e, por isso, não vou mexer muito nessa variável. A White Labs recomenda uma temperatura entre 18.8C e 21.1C, mas em um artigo da revista Zymurgy é mencionado que a melhor temperatura é 17C. Parece que em geral uma temperatura mais alta favorece uma concentração maior de aromas frutados, principalmente banana, enquanto que uma temperatura mais baixa favorece uma concentração maior de cravo. Resolvi não me preocupar muito com isso e coloquei o termostato da geladeira para 18C, com um diferencial de 0.5C.
Uma fervura de pelo menos 1h30 ou 2h é importante para ajudar a precipitar as proteínas coaguladas, aumentando a estabilidade da cerveja e diminuindo a sua turbidez. Por outro lado, uma fervura muito longa pode escurecer demais a cerveja, o que no caso da weizenbier não é desejável.
A questão da quantidade de proteínas é um dos principais fatores que moldam a fabricação de cervejas de trigo. É melhor, nesse caso, utilizar várias paradas de temperatura na brassagem de uma cerveja de trigo. Junto com isso, o método de decocção é utilizado não só para facilitar a quebra das proteínas mas também para realção o sabor do malte. É claro que isso é mais importante em cervejas como dunkel, bock, märzen, weizenbock, etc., mas também é importante em weizens claras. Na verdade, agora que andei lendo mais sobre decocção, me parece até estranho fazer cerveja típica alemã sem usar decocção.
Pois vamos lá. Decocção significa extrair a essência de algum produto através da fervura (essência de plantas, flores ou, no caso, malte). No método de decocção, na brassagem, parte do malte é fervida separadamente e em seguida devolvida à parte principal para elevar a temperatura para a próxima parada. Sempre achei que o método de decocção fosse apenas resquício da tradição, de algo necessário para se trabalhar com maltes pouco modificados e de menor qualidade de outros tempos e de um controle de temperatura menos preciso na brassagem. Essa minha impressão é devida em parte ao fato de que a maioria das fontes cita como fazer decocção mas fala pouco do porquê. Mas parece que a razão principal desse método continuar a ser usado é que ele cria sabores particulares do malte que não aparecem de outra forma, devido a mudanças fisico-químicas que aparecem ao se ferver parte do malte, como caramelização e a reação Maillard. Uma certa caramelização acontece na fervura, mas como a concentração de açúcar é bem maior na decocção, essa caramelização é mais intensa nesse método. E a reação de Maillard precisa de uma concentração muito maior de proteínas que não acontece na fervura. Além disso, como mencionado acima, a decocção ajuda na coagulação das proteínas, algo fundamental em cervejas de trigo. Também é mencionado que esse método é mais eficiente, o que talvez explique a minha inesperada eficiência de 90% (até li sobre esse aumento na eficiência antes de fazer a cerveja mas confesso que não levei fé de que daria tudo certo).
Abaixo as duas panelas usadas na brassagem, com a panela de decoção em primeiro plano, onde parte do mosto é fervida.


A parte fervida escure um pouco mais, o que pode ser visto na próxima foto.

Há vários formas de decocção. Pode ser simples, dupla ou até tripla, dependendo do número de vezes que uma parte do mosto é retirada e fervida separadamente. Eu optei pela simples. Além disso, cada decocção pode ser feita a partir de paradas diferentes de temperatura. Optei por retirar parte do mosto no meio da parada de proteína. Mais precisamente, esquentei a água e adicionei o malte, com o mosto estabilizando próximo de 45C, onde deixei por 15 minutos. Essa parada em 45C é supostamente para realçar o fenólico (aumenta a quantidade de ácido ferúlico, precursor de um tal de 4-vinyl-guaicol, que aparentemente dá o aroma/sabor de cravo). Depois esquentei o mosto para ficar próximo de 50C para a parada de proteína. Esperei 30 minutos e tirei uns 5L de mosto para a decocção (pouco menos de 1/3 do volume total). Essa parte foi esquentada até 71C, mantida aí por 15 minutos (para converter parte do amido desse amostra), depois levada à fervura e fervida por 15min. Enquanto isso, o mosto principal ficou mais 15min a 50C, foi esquentado até 65C e mantido aí por 30 minutos. Em seguida, juntei as duas partes e esquentei mais um pouco até chegar a 72C, onde deixei por 30 minutos. Finalmente, esquentei até 78C e comecei a recirculação e a lavagem.
É claro que as enzimas que estão no mosto que é fervido dançam na parada, mas há enzima suficiente no mosto principal para completar a conversão dos amidos. E também não há o que temer em relação à extração de taninos durante a fervura. Isso só acontece com uma combinação de alta temperatura e pH alto, de modo que a temperatura só precisa ser controlada lá pelo meio ou final da lavagem (evitando que passe de 80C e pH em torno ou acima de 6.0, ou algo assim).
A lavagem occoreu sem nenhum problema para a bazooka screen. Nem sinal de entupimento.
Durante a fervura final, foi impressionante ver a coagulação de certas partículas, flutuando no mosto, algo que não tinha visto de tal forma em outras cervejas. Acho que funcionou tudo a contento. Pena que não tirei foto disso. Mas tirei foto da limpidez relativa (digo relativa pois afinal é uma cerveja de trigo, naturalmente turva) do mosto após a fervura e o resfriamento.

Por último, a fermentação após 36h, mais ativa do que imaginava, e transbordando.

A gravidade final acabou não ficando tão baixa quanto a esperada. Ficou em 1.019, dando uma atenuação de apenas 67%. A atenuação de cervejas de trigo geralmente é alta. Isso pode ter sido por dois motivos: pouco fermento ou uma decocção mal planejada. Não tive tempo de fazer a propagação com antecedência mas como não tinha muito tempo pro concurso, resolvi arriscar assim mesmo, por isso não sei se tinha fermento suficiente. E a parte do mosto que foi para a decocção só teve as paradas em 71C e 72C, podendo ter gerado pouco açúcar fermentável. Deveria ter feito o repouso da parte retirada do mosto a uns 65-67C.
Ainda assim, o aroma está uma delícia e o corpo também, mas preferia que estivesse mais seca. É uma pena, agora é tarde para refazer para o concurso. Mas certamente ficou do meu agrado e vou repetir independente disso, tentando resolver esse pequeno problema. Essa prova que fiz da cerveja foi pouco depois da fermentação, carbonatando artificialmente com um carbonator. Mas a parte pra valer foi engarrafada e ainda está carbonatando, via speise, que também estou arriscando pela primeira vez. Mas vou deixar pra escrever sobre isso e sobre a minha impressão final da cerveja no próximo artigo. Até!
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11 Comentários Faça seu próprio
1. Rafael | 6 de Agosto de 2008 às 17:12
Oi Ricardo, otima explicacao, muito boa materia .. cheia de detalhes…!! fico muito feliz que seu blog esteja mais ativo que nunca, continue escrevendo pra nos…!
boa sorte no concurso…
grande abraco
Rafael
2. rrosa | 7 de Agosto de 2008 às 01:37
Valeu, Rafael!
Bom saber que a parte de comentários também está ativa. Esse retorno é um incentivo fundamental!
Abraço,
Ricardo
3. dani | 7 de Agosto de 2008 às 20:58
Pelo jeito vc nem está tendo tempo de ver TV direito……Posso pegar ela pra mim????
4. Rafael Bomfim | 8 de Agosto de 2008 às 02:10
Ricardo, é impressionante sua dedicacão a prática cervejeira!
O texto ficou muito e com riqueza de detalhes, mas mesmo assim não sei se assimilei bem o procedimento do decotion mash.
Acho que este procedimento é só para os mega-experts mesmo…
Pelo que estou vendo vai ser muito difícil alguém tirar o seu título no concurso…
Boa sorte e um abraco
Rafael Bomfim
5. Ivan G. Steinbach | 11 de Agosto de 2008 às 12:14
Ricardo,
Muito bom esse post sobre decocção. Quero usar esse método para fazer uma pilsen, mas não conhecia ninguém que tinha usado ainda. Tenho como referência o livro do Ray Daniels, mas ver o passo-a-passo do uso é sempre mais interessante.
Parabéns!
Ivan G. Steinbach
6. Edson Costa | 24 de Agosto de 2008 às 16:33
Caro Ricardo,
apesar de ser a primaira vez que coloco um comentário no seu blogue, já o venho acompanhando há muito tempo.
Este texto está fantástico. Apesar da cerveja não ter ficado tal como gostarias, penso que valeu a pena nem que seja pela pesquisa e pelo estudo que essse projecto envolveu.
Obrigado por partilhares alguns deses conhecimentos.
Estou também a planear fazer uma weissbier e este texto de certeza que me vai ser muito útil para desenhar a minha própria receita.
Abraço
7. Felipe | 26 de Agosto de 2008 às 18:13
Ricardo,
na semana passada eu fiz um weizen usando decocção e obtive uma eficiência muito baixa. Adicionei a parte do mosto em que eu fiz a decocção ainda fervendo sobre o resto do mosto, será que isto pode ter “matadoas enzimas?
O que você acha?
Felipe.
8. rrosa | 26 de Agosto de 2008 às 18:26
Valeu, pessoal!
Agradeço a todos pelos comentário e pelo incentivo. Podem ter certeza que isso me anima muito.
Quanto à pergunta do Felipe, não acho que esse tenha sido o problema, a menos que você tenha exagerado na quantidade de mosto fervido. Mas não acredito que esse seja o caso. O mosto vai rapidamente estabilizar em uma temperatura mais baixa e ainda vai sobrar bastante enzima para terminar o trabalho. Se você puder indicar as quantidades e temperaturas utilizadas na decocção podemos ter uma idéia melhor do que aconteceu e de qual possa ter sido o problema.
Um abraço,
Ricardo
9. Wagner | 27 de Agosto de 2008 às 19:52
Olá Ricardo, parabéns pelo blog. Seria possivel vc me falar onde compra o malte e o fermento para a produção de cerveja? Não é para produção de cerveja, parei de beber….. rs….. na verdade é para fazer pão. Obrigado !
10. cubajoe | 1 de Setembro de 2008 às 14:18
Olá Ricardo,
Parabens pelo blog e por todos os posts com explicações minusciosas sobre suas produções.
Estou adentrando o mundo da cerveja caseira aora e ando cotando preços e tipos de equipamentos (garrafões, panelas, baldes de fermentação).
Teria alguma indicaçõao de melhores locais para se comprar (na internet)??
Obrigado!
11. rrosa | 1 de Setembro de 2008 às 14:30
Olá,
Sugiro visitar os sites www.cervejaartesanal.com.br (equipamentos e insumos), www.weconsultoria.com.br (insumos) e www.agromalte.com.br (insumos).
Abs e boa sorte na produção!
Ricardo
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